segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Ensaio histórico do previsível.


Não me quero em conceitos prolixos e confortáveis, eles aveludam o poder de iludir-se nas cirandas da vida, aliás o que são os conceitos senão mentiras bem contadas do nosso ego para a sociedade.
São todos estes aglomerados de fáceis verdades que formam a nossa grande mórula do real, ou do que era para ser nosso tato físico, são eles que determinam o que é para estar no lugar que ocupa ou que estão no lugar em que não deveriam ocupam.
Nesse último caso é o nicho pequeno e quase que protista que residem os sinestésicos, os loucos, os poetas, os artistas e os esotéricos. São todos pequenas fábricas de concepções e visões aquém do trato comum da vida celular, estão todos fora de um padrão metabólico, são vírus em corpo maior, são partículas estranhas e desconhecidas e por isso, fatais.
O todo reconhece a falha do mínimo viral, porém desconhece de sua própria doença, a patologia mãe de uma espécie em desordem: a sua própria sociedade.
Assim extirpa-se a vida ali, e o silêncio é perpétuo ao tempo que se faz necessário um novo sistema, onde os “vírus” passam a ser macro-células de concepções e realidades.
Todo este movimento apocalíptico cria forças para girar a engrenagem do tempo, matando então o que entendíamos como a idade contemporânea da humanidade.
Para onde vamos? Esta resposta ainda paira na dúvida do depois. Por enquanto só guarde a certeza do infalível e catastrófico: a criativa mutagênese dos vírus.
Faz-se mais um capítulo da história.

terça-feira, 28 de julho de 2009

São elas.

São planos, palavras no tempo.
São dores, cores e palavras.
Sim as palavras ao vento
Todas elas, todas todas.

Todas em uma
tão singelas,tão agudas
Tão elas quanto todas.
Todas minhas, todas elas.
Todas nuas , todas suas
Todas nossas
e de ninguém.

terça-feira, 21 de abril de 2009

O nada.

Hoje o papel branco me assombra, talvez nunca senti o peso do nunca, do nada, talvez não tenha entendido o valor refinado do fácil e das modas minimalistas de hoje, não sou tendencioso e não ambiciono concorrer com as tendências do mundo. Tendências são mentiras contadas de nós para nossa personalidade, são espelhos sinuosos refletindo realidades oblíquas, eu não nego, também minto, mas não quero que acredite, quero que me erre, quero ser disposto em fatias na mesa, é questão de tato. Minha mentira não quer mudar sua vida, minha mentira quer mudar a mim.

Hoje minto escrever nada, minto escrever primitivamente, porém anular a escrita é um detalhe a se considerar, pois o nada é mais cheio do que o próprio cheio, do que o transbordado.

E é assim que hoje lhes digo de mim, dos fatos da vida e todo aquele amontoados de idéias que não conseguimos classificar, é tudo um transbordar do vácuo espirrado no papel, um conteúdo volátil que desafia a visão, ele está, mas não é.
Entenda, não quero confundir ninguém, quero só explicar como é interessante dizer do nada, por que podemos falar dele por via da antítese de sua própria forma de existir. Criando.

Eu adiciono objetos no nada ao momento que o descrevo, logo o nada é uma mentira, o meu nada nunca foi absolutamente nada, pois ao momento que eu digo: NADA, ele me responde lá do fundo de si: NUNCA...

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

1932

Aspirou aquela última gota do tempo, um espaço estreito entre o confortável e o possível, bebeu-se em descaso da vida e seguiu para novos tempos de sorrir, uma esperança tola guardava em si um cheiro azedo da carne morta, um bálsamo vermelho opaco era o que cobria seu peito no instante do agora, no instante do absoluto vazio de conhecer-se.

Olhou mais uma vez, como se pudesse extrair dali um pouco de salvação. Não havia. Hoje Rosana, para ti não há nada a não ser partida, a despedida dos tempos que morreram, fecha a porta e desça a cortina, hoje não há show, nunca mais haverá.

Virou as costas na coragem que restava, e sem pensar na miudeza da saudade cerrou a porta e chorou o enegrecer de seu veludo vermelho, confidente de seu pecado.

Derreteu-se rente a porta e pousou melancolicamente no batente, murchou da alma a estrela caída, chorou, esvaiu-se no pranto que lhe cabia poder, emudecia ali o riso do cabaré,as noites de alegria, morria também Rosana, a rainha de MontMartre.

Fez-se ocre o dia em Paris.

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Madalena 1

Eram momentos desconexos, fatos a guisa da emoção, fugindo do lógico cronograma das coisas, essas que nem sei dizer direito o que são, mas fazem acontecer: eu, você e tudo que parece engrossar o caldo catastrófico de existir. Um amontoado de luzes mortas vagando pelo tempo, não nego meu entendimento pessimista da vida, mas essas,digamos, “coisas” nos faz morrer cada segundo, somos cadáveres do tempo, vivendo único e exclusivamente pela morte, o dia do triunfo maior, o dia de não haverem mais coisas, aliás, o dia de não haver mais porra nenhuma.
Apertando um pouco mais dessa ferida posso doer a ponto de achar que viver é um ensaio maior para algo que não sei, algo além do que possamos conceber por morte, talvez haja um dia depois da morte em que não seja morte, seja uma outra vida que não é vida e vamos continuar sendo nesse contexto maior sem saber-se ali.
É assim que começamos a morte da Madalena, a vida de Madalena, e mais todo esse mistério que não é.
Talvez eu não seja tudo o que você sonhou
Talvez não haja mais perfeição no teu olho
Talvez a imagem do hoje não seja mais beleza
Talvez o sonho do sempre morra no começo
Pode ser que não exista mais quem você amou
E que de tudo reste apenas ferrugens de ferrolho
Pode ser que segurava toda a nossa certeza
Pode ser que seja tudo o que eu mereço.

Tenho medo de ser tudo que eu conheço
Mergulhar na minha própria profundeza
Adoecer da minha própria doença
Doer de uma plena tristeza

Independente de nossas incertezas
Eu guardo em mim fatos do passado que nos alegrou
Para que um dia em ressalva e proeza
Você volte a me amar como sempre o fez, quis, e amou.

Talvez um dia.
Talvez.

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

A verdade de Vanessa.


Escolheu ali uma dúzia de laranjas, aquelas que sua avó tanto gostava, e partiu desligada de tudo para o turbilhão de esboços que corriam para suas vidas no final do expediente. Andava em câmera lenta enquanto os vultos passavam quase que levando sua bolsa, suas laranjas e suas lembranças, estava ela no meio da Rua XV de Novembro relembrando seu ultimo amor, seu ultimo sorriso que se perdeu pelas galerias camufladas na imensidão da cidade, parou para ver uma arvore, era de flores rosa, uma porção delas ali paradas olhando para tudo, para todos que passavam despercebidos de suas presenças, mas ela estava ali olhando fixamente para elas, beldades mudas de desejos, elas só eram e possuíam felicidade, ela sabia que possuíam e por isso elas gargalhavam. Olhava para os lados, não havia de ser para qualquer outro, sorriam para ela, podia até mesmo sentir o perfume das moçoilas. Parada e estática Vanessa continuava por horas ali, rindo com elas, amando-as, querendo-as,sendo-as, horas que se espremiam em minutos, momentos de prazer atiçado feito brasa de ferreiro.

Riu também, sentiu-se um pouco elas, podia compreender a lógica das coisas, uma lógica só dela que escondia de si para não saber,ela era uma flor ali rindo para dentro, esperando que alguém a visse, notasse e fizesse dela a estrala do fim da tarde, a musa de inspiração para alguma coisa que valha a pena chorar, mas queria mais que isso, queria juntar-se ás mulheres que lhe entendiam, que violaram seu feminino essencial, então desceu o meio-fio e já podia chorar de alegria, mijava-se toda de satisfação como uma cadela abobada, avançava esvaecendo-se de si rua a dentro.De repente um som, maior que os risos, maior que seu amor, maior do que ela, um zunido alto e doído, seria Deus? Poderia ele iluminar a vida de Vanessa agora? Não, não poderia eu ser tão bondoso, era uma buzina, de um caminhão de lixo, era a morte que veio calar a boca de Vanessa e fazer das flores folhas mudas em preto e branco.

Morrendo ali Vanessa chorava cosendo o ultimo riso que afogou com a hora da morte, chorava em saber que tudo acabou ali, que morria assim como vivia, uma cadela vira-latas mijada e atropelada, um rebento da vida que esqueceu de morrer, fechava seus olhos com medo do que tinha por vir, não haviam mais verdades, não haviam mais desejos,não haviam mais belezas, morria ali doendo a derrota da morte apenas com uma única e plena certeza : Vovó hoje não comerá laranjas....